Um dos maiores temores de qualquer mulher em idade fértil é a ideia de ter um filho sem ao menos imaginar que estava grávida. Parece lenda urbana, não? Longe disso, a história acontece na vida real. Conversamos com algumas mulheres, que contam suas experiências ao passarem pela situação:

“Nada diferente havia acontecido naquele 11 de agosto de 2016. Isso até que umas 18h, quando comecei a sentir uma cólica persistente, que foi se intensificando ao longo da noite. Quando deu 21 horas, coloquei meus dois filhos para dormir e informei meu marido que precisava ir ao pronto-socorro. Ele lembrou que já era tarde e onde moramos costuma ser perigoso, achou melhor esperar. Tomei bastante analgésico e resolvi ir para o banho tentando aliviar a dor.

Maria Valentina em foto tirada no dia seguinte ao seu nascimento. Imagem: Arquivo pessoal

 Quando sentei no vaso sanitário, buscando uma posição mais confortável, senti uma pressão e algo me rasgar por baixo. Apavorada, coloquei a mão e a neném nasceu de uma vez. Lembro de pensar: de onde veio essa criança? Apavorada, gritei por meu marido, que entrou no banheiro como um furacão. Dali em diante foi aquele desespero e um entra e sai danado, pois todos queriam ter a certeza do que viam. Afinal, não tive barriga, meu corpo foi o mesmo e não senti os sintomas da gravidez.

Fomos para o hospital e viramos a atração. Estava fraca, com frio e confusa, pensando em tudo que havia feito sem saber da gravidez, como tomar anticoncepcional e analgésicos. Foi um susto, mas no final deu tudo certo e a bebê só estava com a glicose baixa. Em quatro dias recebemos alta e nossos amigos e familiares ajudaram com roupas, fraldas e até móveis. Demos o nome de Maria Valentina: Maria por ter sido protegida por Nossa Senhora e Valentina por ter sido valente”.

Jéssica Sant’Anna, 27, mãe de outras duas crianças, de seis e dois anos.

Ana Luiza posa com a mãe, Joselita. Imagem: Arquivo pessoal

“Em 1999, minha mãe, que se chama Joselita, tinha 46 anos, estava na menopausa e suspeitava que estivesse com um fibroma ou algo mais sério. Por isso, agendou uma consulta médica em uma terça-feira no final de novembro. Fora isso, levava uma vida normal, tinha até feito faxina no final de semana anterior, sem reclamar de enjoo ou crescimento das mamas. Só estava bem gordinha, então não aparecia a barriga.

Após os exames, o médico explicou que ela estava praticamente entrando em trabalho de parto. Eu estava na faculdade quando recebi uma ligação da minha irmã caçula, na época com 12 anos, avisando que nossa mãe “ia ganhar neném”. Fiquei muito brava e desliguei, achando que era um trote. Mas era verdade, e foi aí que bateu o desespero: morávamos de aluguel, e minha mãe ia ter um bebê sem realizar nenhum exame pré-natal!

Começamos a buscar um hospital e, na quarta-feira à noite, precisei deixar ela sozinha no atendimento, por volta das 23 horas. Três horas mais tarde, o ‘fibroma’ se concretizou em uma menina, nascida de parto normalíssimo, bem saudável. Pela manhã, quando fui visitá-las, pedi para batizar o bebê…  e ela já tinha pensando nesta ideia. Hoje, a Ana Luiza está com 17 anos e é o xodó da família”.

                                                                                                                     Shirley Pinho, 43, irmã e madrinha da Ana Luiza

Flávia conseguiu fazer um chá de aos oito meses de gravidez. Imagem: Arquivo pessoal

“Descobri minha gravidez quando já estava com 30 semanas, quase de sete meses. Acredito que demorei para perceber porque sempre tive a menstruação bem desregulada e, nessa de fazer dieta, eu emagrecia, mas a barriga não saia. Até sentia alguma coisa mexendo, mas achava que era gases. Jamais passou pela minha cabeça que poderia ser um bebê, achava que ficaria apenas na Luiza, minha primeira filha, de cinco anos.

Desconfiada, decidi ir até o posto médico e pedir um exame de urina, que deu positivo. Mas a enfermeira do posto afirmou que poderia ser um resultado falso positivo, por conta de uma suposta menopausa–eu estava com 41 anos. Passei na farmácia e comprei outro teste, que também deu positivo. Avisei o marido, família e fui fazer o primeiro ultrassom. Foi aí que descobrimos que eu já estava de quase sete meses do Gabriel. Foi aquela preocupação, mas tudo deu certo. De forma geral, a gravidez foi bem tranquila, não tive nenhum sintoma, como enjoo, vontade de comer algo diferente, nada”.

                                                                                                             Flavia Vendramin, 41, mãe de Gabriel, de 3 meses.

Afinal, como é possível não perceber que está grávida?

Apesar de ser algo raro, o fato acontece, sim. “Já passei por várias situações em que a paciente chegou com uma queixa de dor abdominal, ou até de tumor abdominal, e era gravidez em estado avançado”, conta o obstetra Belmiro Gonçalves, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e membro da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia do Estado de São Paulo (Sogesp).

De acordo com o médico, o diagnóstico de gravidez costuma acontecer baseado no atraso da menstruação. “O problema é que muitas mulheres acreditam que ainda estão menstruando quando, na verdade, estão tendo sangramentos irregulares e anormais, o que dificulta essa suspeita diagnostica”, diz.

Outra situação comum é a mulher ter um ciclo menstrual irregular e, por isso, não dar a devida atenção a este atraso. “Muitas nem percebem que as características de seu corpo estão mudando, que ela está mais pesada e a barriga cresceu, atribuindo essa ‘engorda’ ao fato de não estarem menstruando”, explica.

Grávida, eu? Claro que não!

Também existem mulheres que, por medo e até rejeição à gravidez, ignoram as transformações do corpo e tentam se convencer de que estão com algum outro problema de saúde, e não grávidas.

“Os sintomas podem ser variados e inespecíficos, como náuseas, sonolência, dor nas mamas, cólicas, entre outros, que também podem ocorrer em situações como TPM, confundindo algumas mulheres”, ressalta Erica Mantelli, especializada em ginecologia e obstetrícia.

“Neste processo de negação interno, ela confunde o bebê mexendo na barriga com gases, por exemplo”, lembra o Dr. Gonçalves. “Não é algo consciente, mas particularmente, e no fundo, acredito que ela saiba o que está acontecendo”, diz.

Quais são os riscos de uma gravidez sem acompanhamento?

Inúmeros. “A falta de suplementação adequada, manter hábitos não saudáveis como tabagismo e ingestão de bebidas alcoólicas ou usar cosméticos proibidos na gestação, entre outros, podem aumentar o risco de malformações, abortamentos, pressão alta, parto prematuro, entre outros”, explica a Dra. Érica.

Já o Dr. Golçalves lembra que existem algumas condições que podem ser descobertas e tratadas ainda durante a gravidez, como anemia e sorologia para várias doenças, como hepatite e sífilis. Outro diagnóstico importante é o de alterações na pressão arterial da mãe, evitando casos de pré-eclampsia. “Ou seja: o pré-natal é fundamental para uma gestação com menos riscos e deve ser iniciado o quanto antes”, diz o médico.

Além da saúde, existe um outro problema do ponto de vista emocional. “A diminuição do tempo para aceitação e adaptação a essa nova realidade pode colocar em risco o pós-parto, intensificando o baby-blues–espécie de tristeza–, aumentando o risco de depressão”, explica a psicóloga Luciana Rocha, especialista em maternidade e infantil, doula e educadora perinatal.

Fonte: UOL São Paulo

Write a comment:

*

O seu endereço de email não será publicado

2017 © Copyright - Dra. Erica Mantelli | Ginecologista e Obstetra
CRM-SP 124.315 | RQE 36685

   

Design by formulaideal