Ser algemada ou algemar o parceiro, usar lingerie de látex, falar palavrões, chupar e lamber o pé… Tudo isso pode ter uma pegada erótica e esquentar o sexo – mesmo com a possibilidade de você ter virado os olhos a alguma dessas opções. Tesão é algo relativo. Peguemos Cinquenta Tons de Cinza, por exemplo. A obra e os filmes foram altamente criticados por muitos e amados por outros. Enquanto algumas mulheres acharam incrível (e intrigante!) o fato de Christian Grey ser praticante de BDSM, outras encararam aquilo como um absurdo e jamais ficariam excitadas ao tomar uns tapas. Quando Ana apanha ou usa um plug anal, ela está em uma posição na qual sente prazer, que escolheu. É do jogo de sedução – e, detalhe importante, tudo é consentido. O que há de errado?

O universo dos fetiches tem uma grande diversidade de ações, fantasias e atividades sexuais que são capazes de elevar o tesão. E ninguém precisa ter vergonha disso. “É uma questão de autoconhecimento. Quando você sabe mesmo quem é e o que quer, assume suas escolhas porque tem certeza delas”, diz a sexóloga e psicóloga Priscila Junqueira, de Campinas (SP).

Enquanto tem quem julgue muitos romances eróticos como “livro para donas de casa” (não precisamos nem comentar o tamanho do preconceito que é fazer uma afirmação como essa), eles ajudam a excitar e melhorar a vida sexual de quem curte – tanto quanto ir a uma festa de swing para outros tipos de casal. “Tesão é algo despretensioso. Uma situação que nem consideramos tão sexy pode aumentar o desejo e a vontade sexual em algum momento. Elas surgem nas situações cotidianas: um beijo, um carinho ou uma pegada intensa viram gatilhos para uma relação maravilhosa”, diz a ginecologista Erica Mantelli, de São Paulo, especialista em saúde sexual.

O que te faz gozar

Não é uma regra, mas, quando falamos em sexo, homens e mulheres tendem a ter percepções diferentes. “O ciclo de resposta da mulher, por exemplo, é diferente do do homem. Não dá pra generalizar, mas na grande maioria dos casos eles se excitam mais rapidamente”, afirma Erica. Além da velocidade, são outros tipos de estímulo que costumam elevar o tesão deles. “A mulher é mais subjetiva. O homem é mais visual. Elas geralmente têm um pouco dessa questão do mistério, de algo que faça despertar sua curiosidade, de sedução”, diz Priscila. Isso, inclusive, pode explicar o motivo pelo qual tantas mulheres gostam de pornô lésbico – e sentem prazer vendo.

Uma pesquisa feita pelo site de conteúdo adulto Pornhub em 2016 mostrou que as mulheres são 186% mais propensas a buscar cenas de sexo lésbico no site do que os homens nos Estados Unidos. Quando essa análise é estendida para o resto do mundo, o resultado é o mesmo. Em segundo lugar entre os vídeos mais buscados pelas mulheres vem o sexo anal – uma prática que ainda é vista como tabu, mas que desperta curiosidade. E antes que você pergunte: não, isso não está necessariamente relacionado com a orientação sexual.

“É difícil afirmar isso. Pode ter alguma em dúvida? Sim. Mas não dá pra dizer com todas as letras. Normalmente, vemos mulheres que já têm uma orientação sexual definida como hétero falarem do desejo desse pornô”, diz Priscila. Ou seja: tem muita mulher vendo filme pornô lésbico ou com penetração anal que, na vida real, não sente vontade de pôr em prática. Só em assistir já se satisfaz sexualmente. Isso também não quer dizer que falta algo no seu relacionamento…

Faça o que tu queres

Você pode não saber, mas existem taras e fetiches dos tipos mais diversos. Aquilo que você leu em Cinquenta Tons de Cinza ou eventualmente viu em um filme pornô não passa nem perto da ponta do iceberg que é o universo dos tesões. Existem pessoas que ficam excitadas ao ser observadas transando, por transarem menstruadas, por dupla penetração… A lista é longa. E é exatamente por essa cara de julgamento que você pode ter feito para algum desses itens que tem gente que sofre (ou se masturba) calado.

Naturalmente que, ao ter relações sexuais, você e o parceiro encontram um lugar-comum sobre o que é sexy ou não para vocês. Afinal, não faria nenhum sentido transar com alguém que gosta só de X quando você curte só Y. Se curte que puxem seu cabelo durante a transa e o boy se sente desconfortável em praticar uma atividade que pode te machucar, o tesão murcha e adeus, sexo. Por isso essa intersecção é tão importante. Ninguém deve ser quem não é nem mudar para agradar ninguém – ceder, uma vez ou outra, veja bem, é bem diferente de se transformar em uma nova pessoa. É bom lembrar que são seus desejos que a fazem gozar.

O que não significa que vocês não devam ter uma conversa sobre fetiches. É claro que é primordial dentro de uma relação ter o diálogo aberto para que o sexo seja o mais prazeroso possível. E é importante começar esse papo de cabeça aberta. Se um de vocês for reativo ou preconceituoso, a conversa tende a ir em direção a um caminho sem volta: insegurança e medo de se abrir. “Os casais, às vezes, querem fazer sexo, mas não falam sobre. Tem que conversar”, diz Priscila Junqueira.

Mas, assim como você pode ter um desejo pouco tradicional, seu parceiro também pode. A confusão pode rolar quando um dos lados propõe experimentar algo novo. O que a gente faz? “O limite deve ser quanto aquilo não a fere, emocionalmente falando. Fantasias podem trazer sofrimentos por causa de lembranças dolorosas, por exemplo”, diz Priscila.

O cara curte que você fique algemada? Se a proposta não a incomoda, e você acredita que vale testar, vá fundo. É dando oportunidade que descobrimos novos prazeres. E, se em algum momento perceber que está demais, parem o sexo. Em relações consentidas, o importante é que ambos sintam prazer – e ninguém é obrigado a nada.

Tesão não é algo que a gente consegue delimitar. A frase “Agora você passou dos limites” não se encaixa aqui. Claro que você tem o direito de dizer não para um desejo que considera doido do parceiro. Mas não pode proibi-lo de sentir isso. O limite é pessoal, intransferível e, inclusive, mutável. Esse ainda é mais um motivo pelo qual não vale o julgamento.

Hoje, você pode achar nada a ver levar um chicote para a cama. Mas e se seu próximo parceiro curtir esse rolê e você decidir experimentar e descobrir novas áreas de prazer? “As pessoas se transformam, ressignificam a vida. O que te dá tesão hoje, amanhã pode não dar mais”, diz Priscila. Nunca diga nunca, não é mesmo?

A vida secreta do parceiro

Uma informação importante: ninguém é obrigado a revelar tudo de que gosta. Dá muito bem para curtir fantasias quando estiver se masturbando sozinha. E, assim como você, o cara também não precisa dividir tudo aquilo que dá tesão. Imagine esta situação: você descobre que seu namorado adora ler os posts do blog de uma atriz pornô.

Para muitas, só isso já seria suficiente para causar uma insegurança. Agora, acrescente o fato de que a especialidade dessa mulher seja pessoas com fetiche por usarem coleira durante o sexo – ela como a dominadora e o cara como submisso andando de quatro pela casa. Algo que ele nunca comentou com você em anos de relacionamento. Tal descoberta pode fazê-la se questionar se o que tem com o boy realmente é prazeroso para ele.

Antes de sentir o baque em sua autoestima, é bom entender que o tesão pode ficar só no imaginário. “Às vezes, é algo tão difícil de assumir e de tornar realidade que só de assistir a pessoa já se realiza”, diz Priscila. Assim como o exemplo do cara, você pode curtir assistir a mulheres recebendo dupla penetração mas não ter vontade de fazer isso mesmo na vida real.

Da mesma forma que às vezes rola uma vergonha de admitir que você curte que alguém beije seu dedão do pé, por exemplo, o boy pode ter receio de revelar que gostaria de ser o submisso na cama. Por isso, encontra outras formas de se satisfazer nessa área – seja nos posts do tal blog, seja assistindo a filme pornô. “Cada um tem uma forma particular de sentir prazer. As pessoas, às vezes, ficam com vergonha de assumir o que é muito diferente por medo do preconceito e de passar por uma situação de sofrimento emocional”, diz Priscila. Deixe que ele curta esse momento de prazer sozinho e não se deixe levar pelas neuras.

É o que você está pensando

Toda essa conversa a deixou confusa sobre o que seus desejos têm a dizer sobre você? Às vezes, nada. Em outras, só um desejo de extravasar mesmo. Gostar de viver o papel de submissa na cama não quer dizer, necessariamente, que é uma pessoa que gosta de receber ordens na vida. Muito pelo contrário, é ok ser uma chefe impositiva e, na hora do prazer, preferir ser mandada. “Exatamente por ter um padrão de comportamento muito rígido, pode ter vontade de experimentar o outro lado na cama. E muitas vezes é na relação sexual que vem esse desejo que estava muito escondido”, diz Priscila.

Então, em vez de partir para a análise, vale mais a pena aproveitar seus orgasmos. Não importa qual seja a prática sexual que te dá tesão. A partir do momento em que nos livramos dos julgamentos, aproveitamos o sexo de uma maneira muito melhor. Relaxe – e goze!

 

FONTE: https: Cosmopolitan

2017 © Copyright - Dra. Erica Mantelli | Ginecologista e Obstetra
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